Bonela

Direitos autorais de imagem: lei, uso indevido e multas

Direitos autorais de imagem: lei, uso indevido e multas

Advogada especialista em Propriedade Intelectual, 
inovação e negócios

Compartilhe esse conteúdo

RESUMO DO ARTIGO

O uso de uma fotografia pode envolver duas proteções independentes: os direitos autorais sobre a foto e o direito de imagem da pessoa retratada. Publicar ou explorar uma fotografia pode exigir licença do fotógrafo ou titular e autorização adequada do retratado. Diante de uso indevido, identifique o direito afetado, preserve provas e avalie correção, licença, retirada ou medida jurídica adequada.

Ter o arquivo, aparecer na fotografia ou contratar um ensaio não significa possuir todos os direitos necessários para qualquer publicação. Uma foto pode reunir autoria, imagem, privacidade, proteção de dados e regras contratuais. Compreender os direitos autorais de imagem ajuda fotógrafos, retratados, agências e empresas a descobrir quem deve autorizar cada uso. 

Este guia apresenta um diagnóstico em duas camadas, mostra como documentar campanhas e indica providências diante de violações, sem presumir crime ou prometer um valor de indenização.

Direitos autorais da foto e direito de imagem

Diferença entre direito autoral da foto e direito de imagem

Direito autoral protege a fotografia; direito de imagem protege a pessoa retratada. São camadas autônomas: a permissão do fotógrafo não substitui a do retratado, e o consentimento deste não transfere os direitos sobre a foto.

Quem criou a fotografia

A fotografia original pode ser protegida pela Lei nº 9.610/1998. O fotógrafo é, em regra, o autor e possui direitos morais, como reivindicar autoria, e patrimoniais sobre reprodução, edição e exploração econômica.

Contrato ou cessão podem atribuir faculdades patrimoniais a outra pessoa ou empresa. Portanto, o titular não é necessariamente quem enviou o arquivo. A proteção nasce com a criação e independe de registro, embora a documentação ajude na prova.

Quem aparece na fotografia

A imagem é direito da personalidade ligado à identidade, honra e privacidade. A Constituição Federal e o Código Civil protegem esses interesses e permitem reação a usos indevidos.

Finalidade comercial, contexto informativo, interesse público e expectativa de privacidade influenciam a análise. Pessoas públicas não perdem integralmente o direito de imagem.

Quando os dois direitos aparecem juntos

Em uma campanha, a empresa pode precisar de licença sobre a fotografia e autorização do retratado. Adaptação, impulsionamento ou veiculação internacional devem estar abrangidos pelo escopo contratado.

Agência e cliente final podem receber direitos de uso da fotografia por contrato, dentro dos limites de finalidade, canais, prazo e território estabelecidos. Isso não lhes confere titularidade ou autorização além do escopo negociado.

Se o cenário contiver obras protegidas reconhecíveis, como pinturas, esculturas ou projetos, o uso também poderá exigir análise adicional. Um contrato de licenciamento organiza esses fluxos.

Direito de propriedade do arquivo ou equipamento

Comprar a cópia, receber o arquivo ou pagar pelo ensaio não transfere automaticamente direitos autorais nem permite edição, sublicença ou exploração ilimitada. O uso depende da lei e do contrato.

Verificação de licença para uso de fotografia

Quando é possível usar uma imagem

O uso é mais seguro quando existe autoria identificada, cadeia de titularidade e permissão compatível com a finalidade. Antes de publicar, confirme tanto os direitos sobre a fotografia quanto os direitos da pessoa retratada.

Obra própria, licença ou domínio público

Mesmo em obra própria, verifique pessoas, ambientes privados e criações de terceiros. Se a foto pertence a outro titular, confira canais, território, prazo, adaptações, atribuição e finalidade permitidos.

No domínio público, registre fonte, autoria e regra temporal utilizada. Restaurações e edições podem ter proteção própria. Ausência de marca d’água não prova uso livre.

Bancos de imagem e Creative Commons

Bancos de imagens podem limitar uso comercial, tiragem, mídia paga, sublicença ou produtos. Licenças Creative Commons variam quanto a atribuição, adaptação e exploração econômica.

Guarde comprovantes, termos vigentes na data da aquisição e identificação do arquivo. Se houver pessoa reconhecível, confirme se existe autorização de modelo adequada; a licença autoral pode não resolver o direito de imagem.

Exceções legais e interesse público

A legislação admite limitações específicas aos direitos autorais e situações nas quais informação, contexto jornalístico, ordem pública ou administração da justiça afetam a análise da imagem. Isso não cria uma licença geral para copiar fotografias ou expor pessoas.

Avalie finalidade, necessidade, proporcionalidade, fonte e apresentação. Uma foto de evento público em reportagem não equivale à mesma imagem em propaganda. Biografias e fatos de interesse coletivo também exigem análise própria.

Crédito e poucos segundos não bastam

Dar crédito atende à atribuição, mas não substitui licença ou autorização. Ausência de lucro, remoção da marca d’água, edição parcial ou uso breve também não tornam a reprodução automaticamente permitida. O correto é verificar a base de uso antes da publicação.

Imagens na internet, Instagram e marketing

Profissional revisando direitos de imagem para campanha

Conteúdo acessível na internet continua protegido. Compartilhamento nativo e termos da plataforma não equivalem a copiar e republicar em outro contexto.

Postar não coloca a imagem em domínio público

Ao publicar, o usuário pode conceder direitos à plataforma conforme seus termos. Terceiros, porém, não ganham licença para reproduzir a foto em site, anúncio ou produto. Google, Instagram e Pinterest não certificam autorização comercial.

Repost, print, meme e edição

Repost nativo pode diferir de baixar e publicar novamente. Prints, memes, cortes e montagens envolvem reprodução, transformação, contexto e imagem do retratado. Humor ou viralização não criam exceção automática.

Identifique a fonte, confira permissões e avalie se a edição associa alguém a mensagem não autorizada. Em dúvida, obtenha licença ou escolha material de origem comprovável.

Campanha, anúncio e mídia paga

Uso publicitário merece autorização expressa sobre canais, impulsionamento, território, período, formatos e reutilização. Permissão para post orgânico não inclui necessariamente anúncio, embalagem ou campanha de cliente.

Agências devem documentar a cadeia entre fotógrafo, modelo e anunciante. A gestão de ativos autorais reduz usos além da licença.

Imagens geradas ou alteradas por IA

Em IA, verifique termos da ferramenta, entradas e pessoas identificáveis. Clonar rosto ou simular endosso pode afetar imagem, honra, privacidade e dados pessoais. A origem artificial não elimina direitos.

Como fazer uma autorização de uso de imagem

Preservação de provas de uso indevido de imagem

Uma autorização de uso de imagem deve transformar a utilização planejada em limites verificáveis. Identifique as partes e as fotografias abrangidas e estabeleça finalidade, canais, duração, território, edições permitidas, remuneração e procedimento de retirada.

O documento deve ser coordenado com a licença da fotografia, os contratos da campanha e a proteção de dados.

Defina canais, prazo e território

Liste redes, mídia paga, impressos, eventos e plataformas. Defina período, países e arquivo histórico. Diferencie publicação e impulsionamento, sem presumir autorização permanente e mundial.

Regule edição, sublicença e reutilização

Informe cortes, filtros, montagens, tradução e peças derivadas permitidos. Defina acesso por agência, fornecedores e cliente final. Sublicença não deve ser presumida. Nova finalidade pode exigir nova manifestação.

Combine remuneração e aprovação

Registre gratuidade ou cachê, pagamento, créditos e aprovação. Ensaio, licença autoral e uso da imagem podem ter remunerações distintas. Para aprovação, estabeleça prazo e critério.

Preveja revogação, retirada e arquivo

Defina efeitos de revogação e término sobre campanhas e despublicação. Regule portfólio e provas. Quando a imagem for dado pessoal, observe a LGPD, sem presumir que consentimento seja a única base legal.

Elementos de uma autorização de uso de imagem

O que fazer diante do uso indevido

Ao identificar um possível uso indevido, preserve as provas, verifique qual direito foi afetado e solicite ao responsável ou à plataforma a providência compatível com o caso. Quando houver risco imediato, exposição íntima ou ameaça à vítima, priorize sua segurança e procure apoio jurídico sem demora.

A retirada rápida pode ser necessária, mas registrar previamente o contexto ajuda a demonstrar o alcance da publicação e a identificar os responsáveis.

Preserve provas antes de pedir retirada

Registre URLs, perfil, data, capturas completas, anúncios, comentários, alcance disponível e páginas relacionadas. Guarde arquivo original, metadados, versões de edição, contratos, licenças e comunicações. Em casos relevantes, avalie meio técnico adequado para reforçar a autenticidade da prova.

Conteúdo íntimo, ameaça ou risco à vítima exige prioridade à segurança; não compartilhe novamente o material para “provar” a ocorrência além do necessário.

Confirme qual direito foi violado

Pergunte quem fez a foto, quem possui direitos patrimoniais, quem aparece e qual uso havia sido autorizado. 

A violação pode envolver reprodução sem licença, falta de atribuição, exposição da pessoa, privacidade, proteção de dados ou combinação desses elementos. Essa identificação orienta o pedido e evita alegações incompatíveis.

Solicite correção, crédito, licença ou remoção

Defina o objetivo: retirar, corrigir autoria, regularizar por licença ou impedir nova campanha. Notifique quem publicou com identificação do conteúdo, direito invocado, prova disponível e providência solicitada. Use também canais da plataforma quando adequados.

Crédito posterior pode resolver atribuição, mas não necessariamente a exploração não licenciada ou a exposição do retratado. Evite ameaçar responsabilização criminal sem base; uma abordagem técnica preserva opções de negociação e medida judicial.

Quando buscar medida judicial ou urgente

Urgência pode existir em campanha ativa, conteúdo íntimo, exposição de menor, risco à reputação, perseguição ou recusa de remoção. As medidas dependem dos fatos e podem buscar a interrupção do uso, a preservação de dados, a identificação do responsável e a reparação. 

Indenização, multas e possíveis crimes

Proteção da pessoa contra exposição não autorizada

Não existe consequência única para todo uso indevido. Contrato, finalidade, alcance, dano, prova e enquadramento legal determinam as medidas possíveis. Responsabilidade civil não deve ser automaticamente convertida em crime.

Existe multa fixa por uso indevido

Não há tabela legal nacional que imponha uma multa padrão por fotografia ou publicação. 

Cláusula penal resulta do contrato; indenização é examinada no caso concreto; sanções administrativas, como as relacionadas à proteção de dados, dependem de seus próprios requisitos. 

Orçamento de licença também não equivale automaticamente ao valor de uma condenação.

Como a indenização pode ser analisada

Finalidade econômica, alcance, duração, contexto, dano, proveito obtido, valor de mercado da licença e conduta após a notificação podem ser relevantes. A Súmula 403 do STJ afirma que independe de prova do prejuízo a indenização pela publicação não autorizada da imagem de pessoa com fins econômicos ou comerciais.

O enunciado não deve ser ampliado para qualquer publicação. O STJ já diferenciou usos publicitários de situações jornalísticas ou biográficas, conforme o contexto. Também é necessário separar danos do retratado e violações autorais do fotógrafo.

Quando a exposição pode ser crime

Expor uma foto sem consentimento não é automaticamente crime. A tipificação depende da conduta e do conteúdo. O artigo 218-C do Código Penal alcança, entre outras condutas previstas, a divulgação sem consentimento da vítima de cena de sexo, nudez ou pornografia. O artigo 216-B trata do registro não autorizado de intimidade sexual.

Outros crimes podem ser discutidos conforme ameaça, perseguição, invasão, fraude, honra ou participação de criança e adolescente. A avaliação deve ser individual, sem usar o rótulo criminal apenas como pressão em disputa comercial.

Remoção de conteúdo íntimo na internet

O art. 21 do Marco Civil da Internet trata da divulgação não autorizada de imagens, vídeos ou outros materiais com nudez ou atos sexuais de caráter privado.

O provedor pode responder subsidiariamente se, após receber notificação válida da pessoa participante ou de seu representante legal, não agir de forma diligente para indisponibilizar o conteúdo, dentro dos limites técnicos do serviço.

A notificação deve conter elementos que permitam identificar especificamente o material e verificar a legitimidade de quem apresenta o pedido. Preserve as provas, evite redistribuir o conteúdo e procure apoio imediato quando houver risco à vítima.

Conclusão: verifique direitos antes de publicar

Agência avaliando licenças e autorizações de imagens

Gerenciar direitos autorais de imagem exige identificar autor, titular, retratado, finalidade e limites da autorização. Contratos claros e registros de licença evitam que campanhas ultrapassem o uso permitido. 

Em caso de conflito, a Bonela PI pode apoiar autorizações, licenciamento, preservação de provas e definição da estratégia adequada.

Dúvidas frequentes

Não existe preço legal único para licenciar fotografia ou autorizar uso de imagem. O valor é negociado conforme finalidade, canais, território, prazo, alcance, exclusividade, edições, autoria e participação do retratado. Banco de imagens, fotógrafo, modelo e agência podem ter condições e remunerações distintas.

Fontes citadas neste artigo

  1. Presidência da República — Lei nº 9.610/1998, art. 44: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9610.htm

  2. Presidência da República — Marco Civil da Internet, art. 21: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2014/lei/l12965.htm

  3. Creative Commons — Irrevogabilidade das licenças: https://creativecommons.org/faq/

  4. Presidência da República — Constituição Federal: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm

  5. Presidência da República — Lei nº 9.610/1998: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9610.htm

  6. Superior Tribunal de Justiça — Súmula 403: https://arquivocidadao.stj.jus.br/index.php/sumula-403

  7. Presidência da República — Marco Civil da Internet: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2014/lei/l12965.htm

  8. Presidência da República — Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2018/lei/l13709compilado.htm

Este conteúdo foi útil?

Compartilhe com quem também precisa dele

Natália Bonela de Oliveira

Autoria e revisão técnica

Natália Bonela de Oliveira

Advogada especialista em Propriedade Intelectual, 
inovação e negócios

Natália Bonela é fundadora do Bonela PI e atua há mais de 15 anos na proteção e valorização de ativos intelectuais.

Mestre em Propriedade Intelectual e Inovação pelo INPI, Natália Bonela assessora empresas, inventores, criadores, departamentos jurídicos e escritórios de advocacia em projetos no Brasil e no exterior.

Sua atuação combina conhecimento jurídico, visão de negócios e experiência em mais de 400 projetos de propriedade intelectual.

Você também pode gostar

Pesquise outro tema

Seu negócio está protegido na mesma velocidade em que está crescendo?

Entenda exatamente o que precisa ser registrado, organizado ou defendido.

Vamos conversar sobre o seu projeto.

Você também pode gostar:

Navegue por categorias

Marcas

Proteção, registro, gestão, monitoramento e defesa de marcas.

Inovação e Patentes

Patentes, pesquisa, tecnologia, desenvolvimento e inovação.

Estratégia Jurídica

Contratos, pareceres, perícias, notificações e licenciamento.

Direitos Autorais

Obras, software, design, fotografia, moda e economia criativa.

Expansão 
Internacional

Proteção de ativos intelectuais em diferentes mercados globais.

Casos Reais

Decisões, disputas e casos práticos da propriedade intelectual.

Guias Práticos

Guias claros para dúvidas frequentes sobre proteção de ativos.

Tendências e 
Atualizações

Regulação, inteligência artificial, eventos e novidades do setor.